terça-feira, 4 de maio de 2010

1º de Maio 2010 dia do trabalhador

Neste dia especial num período de sacrificio, é bom que tomemos em conta que não pode ser só quem trabalha a pagar o preço da crise.


O operário em construção
Autor: Vinnicius Morais

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!
Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído

VIVA o 1º de Maio, viva todo o povo português que trabalha, ou que está impedido de o fazer porqque não tem trabalho!

domingo, 2 de maio de 2010

Intervenção da coordenadora de bancada do BE na sessão evocativa do 25 de Abril da Assembleia Municipal de Condeixa-a-Nova

Sr Presidente da Assembleia Municipal

Sr Presidente da Câmara
Senhoras e Senhores Autarcas
Senhoras e Senhores Convidados

Ao comemorar o 36º aniversário do 25 de Abril, o Bloco de Esquerda saúda mais uma vez os militares de Abril que desencadearam a revolução dos cravos e reafirma a sua determinação de continuar a lutar pelas bandeiras que emergiram do processo revolucionário que se lhe seguiu, em 74 e 75.

Esse processo, profundamente participado e democrático, expressou as mais profundas aspirações do povo português.

Na rua, no campo, nas empresas, nas escolas nos bairros por todo o lado, a luta abriu caminho à liberdade, à democracia, ao bem-estar, à paz.

Hoje, olhando para trás, 36 anos volvidos, temos uma democracia que não responde a questões económicas e sociais, pelo que não pode ser considerada uma Democracia, registe-se que Portugal é hoje o 2º país da UE com maior desigualdade entre ricos e pobres.
As gerações mais novas, nunca conheceram outra coisa senão crises económicas, sociais ou políticas, portanto, as forças políticas que governaram Portugal nestes 36 anos, não só não cumpriram os ideais de Abril, como alienaram o nome de Portugal.
Por tudo isso, hoje, tal como há 36 anos, as bandeiras da liberdade e da democracia continuam a ser os baluartes do Bloco de Esquerda, que com a força da participação e mobilização popular, tudo fará para cumprir esses desígnios.
Pela força que a razão nos dá, é em nome da dignidade e da transparência que urge acabar com os escândalos da corrupção que minam impunemente o nosso País, acobertados por um governo que arrasta o nome de Portugal para caminhos e situações ignóbeis, que nos envergonham, guiando-nos a cada dia que passa para o abismo económico e social.

É em nome da dignidade, que se impõe garantir trabalho aos mais de 10% desempregados, muitos deles jovens com elevadas habilitações, mas desprezados e lançados para empregos precários e sem futuro, ou para o estrangeiro, como aconteceu nas décadas de 60/70 do Século XX.

É em nome da dignidade que urge acabar com as reformas milionárias que alguns acumulam com outros cargos, quando crianças chegam às escolas em jejum porque já não há pão e leite em casa, ou quando outros estudantes deixam de estudar, porque os seus pais não têm como pagar.

É em nome da dignidade que devem ser diminuídos os escandalosos ordenados pagos a tantos que nada produzem, ( ia dizer salários, mas esse é um termo para os pobres ),bem como linearmente eliminados os prémios dos gestores das empresas onde o estado tem participação. Estas e outras situações são vergonhosas e indignas, quando a pobreza impera, quando os ordenados não são pagos, quando se ataca ferozmente o poder de compra da classe média, quando os reformados vivem miseravelmente, quando o abismo social se cava cada vez mais fundo. Tal como em Abril de 74, impõe-se exigir respeito por quem vive do seu trabalho ou da sua magra reforma.

É igualmente em nome da dignidade que se devem rever as políticas liberais do Código do Trabalho e integrar nos quadros os precários da administração pública .

É em nome da democracia social, que se impõe defender o Serviço Nacional de Saúde, geral, universal e gratuito acessível a todos e em todo o país. Esta é hoje, uma exigência tão actual como em 74, ou talvez ainda maior, tendo em conta os serviços que o governo encerrou em todo o país, bem como o aumento das listas de espera para consultas e cirurgias de doentes em risco, retrocedendo - se assim na coesão e igualdade.

É em nome da democracia social que o Estado não deve privatizar os CTT, tal como outros serviços públicos, impedindo a sua entrega a retalho, á voracidade dos apetites dos grandes grupos empresariais, sempre à espreita de novas oportunidades de negócios, que não se coadunam com as necessidades dos mais desfavorecidos.

É em nome da democracia que, urge defender a Escola Pública, respeitando e fazendo respeitar os seus profissionais, todos os dias desconsiderados, tratados como malfeitores ou parasitas.
É em nome da democracia e da liberdade que devem ser criadas condições para que não haja sequer suspeita, sobre a liberdade de expressão e de informação

É em nome da democracia e da liberdade que se devem criar todas as condições para que não existam quaisquer suspeições sobre o poder judicial, de forma a que este possa exercer os seus poderes de uma forma independente, quer em relação ao estado, quer em relação aos grandes interesses económicos.
Neste dia da liberdade, queremos ainda expressar a nossa profunda solidariedade para com o povo do Saahara Ocidental, onde os direitos humanos estão a ser espezinhados e cuja história recente mais parece um decalque da que foi vivida pelo povo de Timor Leste até ganhar o direito a ser um Estado independente com o patrocínio da comunidade internacional. A greve de fome de mais de 30 activistas saharauis, presos em Rabat, exige que o silêncio não prevaleça. E um país que soube ser solidário com os timorenses não por interesse próprio, mas para que o primado do direito e da decência fosse garantido, não pode fingir que nada se passa aqui mesmo à nossa porta.

Término esta minha intervenção, citando Sofia de Mello Bryner, que, tal como outros poetas de Abrir tão. bem soube expressar o sentimento da liberdade, é bom que os nossos governantes, ao nível do poder local e central tentem de novo sentir o doce perfume dos cravos, de que seguramente já se esqueceram, bem como reler e reflectir sobre a metáfora que encerra este pequeno poema!

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo

Esta é a madrugada que eu esperava!

Muito obrigada a todos e viva o 25 de Abril.

Pela bancada do BE, 25 de Abril de 2010

Maria de Lurdes Mendes Simões