sábado, 5 de novembro de 2011

Literatura Mundial e Linguagens


[O poeta sueco Tomas Tranströmer, que ganhou este ano o prémio nobel da literatura, escreve sobre a morte, a história, a memória e é conhecido pelas suas metáforas. A propósito da literatura e de outras linguagens, eis um texto de Tariq Ali, publicado em International Viewpoint - 1/12/2010]

Literatura Mundial e Linguagens
Tariq Ali*
A globalização tem produzido uma cultura muito provinciana. O turbo-capitalismo tem muito pouco tempo para a cultura e para os livros. "Dom Quixote" de Cervantes é provavelmente a primeira peça da literatura mundial que, em si mesma, foi uma síntese das culturas muçulmana, cristã e judaica.
O mundo da literatura e das línguas preocupa-nos a todos. Não é um assunto destinado somente a especialistas. Atrai-nos a todos. Primeiro, vamos falar sobre literatura mundial. Existe uma literatura mundial? A resposta é obviamente, sim. Existe uma literatura mundial. Vista como tal? Isso depende das línguas em que se traduz. Existe uma literatura mundial em línguas nacionais? Não sabemos disso. A razão é que muito pouca literatura é traduzida da maior parte das línguas nacionais para os principais idiomas.
Hoje, em dia, a linguagem imperialista dominante é, claramente, a inglesa. A segunda é a espanhola. Embora a língua espanhola não seja imperialista, como já o foi. Por isso, é falada em toda a América Latina, com excepção do Brasil. Claro que também é falada em Espanha e na costa oeste dos Estados Unidos, onde existe uma grande população hispânica. A questão é: a literatura que aparece na esfera do mundo literário depende do quanto é traduzida para os idiomas do mundo? De facto, não é tanto assim.

Os lvros na era globalização e do turbo-capitalismo
O impacto da globalização na literatura mundial tem sido a compartimentação. A globalização tem produzido uma cultura muito provinciana. Hoje, existe menos conhecimento sobre as diferentes partes do mundo do que há quarenta anos atrás. Esta falta de compreensão sobre o resto do mundo afecta tudo. Por exemplo, afecta o que se lê nos jornais ou se assiste na televisão. Mais espaço nos medias foi dedicado a outras partes do mundo. Mas há muitas razões para isso. Uma razão é que o turbo-capitalismo tem muito pouco tempo para a cultura e para os livros. 
Cada vez mais, os livros são publicados, em todo o mundo, a partir da lista de best-sellers do New York Times. Na Europa e na América do Sul, onde costumavam ser muito orgulhosos das suas línguas, agora produzem, muitas vezes, o que está na lista de best-sellers. A sua primeira consideração é: a partir desta lista, quanto podemos pagar? A sua segunda consideração é: quanto dinheiro é que podemos fazer com isso? Isto está a criar, essencialmente, a deformação e uniformidade culturais. Isso é muito prejudicial para a literatura mundial.
Mesmo em países como a França onde costumavam ter muito orgulho da sua língua, desde os dias do Iluminismo, considerado um sumário dos valores do Iluminismo francês, encontram-se romancistas, escritores e académicos nas filas das editoras que publicam em Inglês. Isso nunca foi assim antes. A razão é que eles querem ser lidos na língua imperialista, em particular. Querem ser lidos nos Estados Unidos. O impulso da globalização em termos de economia e política, baseava-se no consenso de Washington, após o colapso do comunismo na União Soviética. Agora a cultura segue o mesmo caminho.

Literatura para Nobel
Além da lista de best-sellers, temos a literatura criada para o Prémio Nobel. Neste caso, o Comité Nobel decide o que é um belo romance. Digamos que um bom romance escrito por algum escritor etíope ou somali é levado ao conhecimento do Comité. A primeira pergunta é: o romance foi traduzido para francês? Pois eles preferem romances traduzidos para francês. Se por acaso, o romance foi traduzido para francês, é considerado candidato a Prémio Nobel. Se o autor recebe o Nobel, o seu livro tornar-se-á parte da literatura mundial e das redes do mundo literário.
Essa literatura do mundo oficial, produzida por prémios e reconhecimento feito por um pequeno grupo de pessoas, sentado ironicamente na Escandinávia, em nome do inventor da dinamite, não é um critério suficiente para determinar o que constitui a grande literatura. Muito antes dos Prémios Nobel, todas as questões foram suscitadas num romance que fez um trabalho de âmbito universal. Esse romance foi escrito, em Espanha, no século XVII: "Dom Quixote" de Cervantes.

Dom Quixote: a primeira novela mundial
Nós sabemos sobre este romance, porque foi traduzido em muitas línguas.  Foi, por exemplo, traduzido para o chinês no século 18. O que é mais interessante nesta novela é que aqueles que não conhecem a língua espanhola e a história espanhola, não lhes é possível entenderem esta novela. No entanto, é muito importante romance.  Há uma nova tradução bonita feita por Edith Grossman. A introdução no livro é de Harold Bloom e nada diz sobre o contexto em que este romance foi produzido.
O que realmente queremos saber é o contexto espanhol em que este romance foi escrito e o que este grande escritor estava a tentar dizer-nos. Ele estava a tentar, de fato, dizer-nos muitas coisas. A Espanha de que fala Cervantes foi o único país onde co-existiram três civilizações durante centenas de anos, e essa Espanha foi destruída. Durante muitos séculos, muçulmanos, judeus e cristãos civilizações co-existiram e debateram em Espanha.
Fora destes debates e discussões cresceu a cultura andaluz, a poesia e a filosofia, que eram temidos em Bagdad como muito radical e muito questionadora.  Esta foi uma civilização surpreendente em muitos aspectos.  Mas foi destruída em dois anos-chave. Em 1492, o ano marcado pela expulsão dos judeus da Espanha. Os judeus foram avisados para saírem ou se converterem. Converterem-se disseram-lhes pois se fossem capturados a fazerem os seus rituais judaicos, seriam queimados até à morte. A fim disso, foi criada a polícia secreta chamada Santa Irmandade.
Considerando o actual tratamento dos palestinianos por parte de Israel e a raiva que ele gera, é fácil esquecer que a civilização muçulmana e judaica coexistiram, tanto no mundo árabe como na Andaluzia e na Sicília. Os muçulmanos eram a classe dominante que protegia os judeus. Houve alguns ataques a judeus na Andaluzia, mas eram muito poucos e os judeus foram protegidos em grande porte.  Esta coexistência criou uma cultura muito rica. Quando esta cultura foi destruída pela Reconquista, ambas as civilizações foram exterminados.
O que foi dito aos judeus, em 1492, foi dito aos muçulmanos, 6º anos depois: que saíssem ou se convertessem. Como os muçulmanos costumavam tomar banhos rituais três vezes por dia, foram proibidos de o fazer. Ironicamente, tomar banho tornou-se um crime.  Os balneários públicos foram destruídos.
Foi nesta Espanha que nasceu e cresceu Cervantes. Todas as evidências apontam para o fato de ele pertencer a uma família judia da classe médica. Converteram para se salvarem e porque eles não queriam deixar o país. Quando Cervantes começou a escrever este romance, nas primeiras páginas, diz curiosamente que não o escreveu. Os leitores ficam chocados. Ele diz como:
"Um dia, quando estava no mercado Alcana, em Toledo, chegou um menino para vender alguns cadernos e papéis velhos a um comerciante de seda. Como gosto muito de ler, mesmo papéis rasgados nas ruas, fiquei comovido com a minha natural inclinação para pegar num dos volumes que o rapaz estava a vender. Vi que estava escrito em caracteres e sabia que era árabe. Reconheço que não os podia ler. Olhei em volta para ver se algum mouro, que conhecesse castelhano, os poderia ler para mim. Morava na vizinhança e não seria muito difícil encontrar esse tipo de intérprete, pois se procurasse um falante duma língua melhor e mais velha, tê-lo-ia encontrado.''

A melhor e mais velha língua era a hebraica
Faz dois pontos aqui. Está a dar uma dica de onde vem e que a novela foi realmente escrita em árabe. Porque faz isso? Não é por diversão. É um protesto literário, pois já tínhamos uma cultura em que o hebraico e o árabe floresceram. Ele também se está a proteger por causa da Inquisição. Tudo é cuidadosamente pensado antes de ser posto no papel. Na minha opinião, o objectivo real de Dom Quixote é a Igreja Católica. 
Ele faz isso de uma maneira muito especial, porque se fosse permitido abertamente, poderia ser julgado por heresia, blasfémia, e ser queimado vivo. Ele é muito cuidadoso do jeito que escreve. A sua novela está repleta de história. Isto é o que, curiosamente, faz do seu Dom Quixote um romance histórico mundial. Dom Quixote de Cervantes é provavelmente a primeira peça da literatura mundial que em si mesma foi uma síntese das culturas muçulmana, cristã e judaica.

"Cidades de Sal" de Munif
Os outros escritores de que eu quero falar são modernos, escritores do século XX.  Um deles é definitivamente um grande romancista do mundo árabe Abdelrehman Munif. Alguns dos seus trabalhos foram traduzidos para Inglês. A sua trilogia "Cidades de Sal" é uma das mais devastadoras, satírica e brilhante descrição de um tipo particular de governantes árabes. As pessoas dizem que tem representado os governantes da Arábia Saudita. Sim. Mas o que ele diz sobre os governantes da Arábia Saudita também é verdade para os governantes de outros estados do Golfo. De certa forma, até mesmo sobre Hosni Mubarak. Munif não é tão conhecido como Naguib Mahfouz que, por sua vez, se tornou popular como Nobel. Naguib Mahfouz é também um grande escritor.
Contudo, Munif, na minha mente, é mais nervoso, mais exigente, levanta mais perguntas e dá muitas mais respostas. Em "Cidades de Sal", foi privado da sua nacionalidade saudita. Mas continuou a escrever. A última coisa que escreveu antes de morrer, foi uma trilogia sobre o Iraque. Espero que um dia seja traduzido para o Inglês. Mas a maneira como Munif escreveu sobre o Ocidente é bastante chocante. Embora alguns críticos alemães o elogiassem como mestre e John Updike revisitara o seu trabalho no New Yorker, por que escreveu assim Munif? Updike pensou que o que Munif escreveu não era um romance. 
Pode ser que não fosse uma novela para satisfazer Updike. Mas o que Munif escreveu é um grande pedaço de literatura árabe moderna. Uma obra de valor histórico mundial. Ele escreve sobre uma classe árabe dominante após a descoberta de petróleo. Retrata a simbiose entre a companhia petrolífera estrangeira e os líderes tribais nativos que não tinham ideia que estavam sentados sobre o petróleo. De repente, tudo muda para aqueles que colaboram com a empresa petrolífera estrangeira e mais tarde com um governo estrangeiro. A mensagem que permeia o livro é: o que estes governantes fariam depois de desaparecer o petróleo? As cidades tornar-se-ão areia novamente.
É uma mensagem poderosa. Arranha-céus sem qualquer significado desaparecerão.  Ele questiona os governantes: o que fazem para o seu povo? Mesmo em Damasco, onde viveu no exílio, não lhe foi dada muito espaço para falar. Como tinha uma língua afiada! Certa vez, deveria dar uma palestra. Não era permitido fazer propaganda. A mensagem espalhou-se de boca em boca. Mais de 5.000 pessoas compareceram. Definitivamente, a sua obra faz parte da literatura mundial. Mas quantos mais existem e escrevem em árabe?  Nós não sabemos como não foram traduzidos. E você pode ter o mesmo padrão de continente para continente.

Literatura negada pelo Nobel
Durante a Guerra Fria, o Prémio Nobel fez parte dela. Cada dissidente soviético conseguiu-o. Porém, houve algumas excepções, para ser justo. Mas o carácter do Prémio Nobel também pode ser determinado por julgar a quem ele foi negado. Gostaria de salientar o escritor indonésio, romancista, crítico literário e comunista Pramoedya Ananta Toer. Bloqueado pela ditadura de Suharto, durante vários anos, e mantido nas ilhas de Buro, sofreu de desnutrição. Toer e outros presos políticos mantiveram-se vivos pela ingestão de lagartos e outros animais pequenos. A ditadura não teve coragem de os matar. Mas quis matá-los lentamente. Na prisão, Toer começou a contar histórias para os seus companheiros para manter a sua moral elevada. Estas histórias tornaram-se a base para a sua trilogia "Buru", que escreveu na prisão.
E entretanto o regime enviava pregadores islâmicos e jornalistas para inspeccionar as suas mentes e incitá-los a tornarem-se crentes: "Não tenho dúvida de que esse ano, assim como nos anos anteriores, no início do mês de jejum, os meus companheiros e eu, teremos uma palestra feita por um funcionário religioso especialmente trazido do mundo livre, sobre a importância do jejum e do controle da fome e do desejo. Imagine o humor disto! "
Quando, após a queda da ditadura de Suharto, ele voltou, teve uma recepção de herói. Mas porque não aceitou um Prémio Nobel? Se alguém o merecia, seria ele. Não por causa das suas ideias políticas, mas pela qualidade da sua literatura. Há aqueles que pensam que a literatura deveria ser política. Eu não concordo muito com isso. Política, pelo menos, não à custa de obras literárias.
Toda a novela tem que ter estilo, forma e conteúdo. Toer tinha tudo. Em "She Who Gave Up", escreveu: "Assim como a política não pode ser separada da vida, a vida não pode ser separada da política. As pessoas que se consideram não-políticos não são diferentes, pois já foram assimiladas pela cultura política dominante. Apenas não sentem mais nada ".  Não é verdade, em qualquer parte do mundo?

* Tariq Ali é historiador, escritor, realizador de cinema e comentador
Tradução: António José André

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

INCONFORMAÇÃO 2011 :: Encontro Nacional de Activistas Estudantis :: 18-20 Novembro, Porto


 INCONFORMAÇÃO
Encontro Nacional de Activistas Estudantis
18, 19 e 20 - Porto






O INCONFORMAÇÃO é um espaço de debate, de formação inconformista e de discussão alternativa. É um encontro nacional e de pensamento dirigido a activistas estudantis e aberto a todos e todas os que queiram participar. É uma iniciativa dos estudantes do Bloco de Esquerda, onde são bem vindas todas as pessoas com vontade de pensar e de transformar a realidade, sejam ou não do Bloco.



Vem pensar e debater o Ensino Superior e o Secundário
Vem discutir estratégias de intervenção
Vem discutir bolsas, acção social e igualdade
Vem discutir propinas e precarização;
Vem discutir a Democracia!


Nos dias 18, 19 e 20 de Novembro vem ao Porto



Informações

Data: 18, 19 e 20 de Novembro

Local: Porto
Sexta-Feira:  Sede do Bloco de Esquerda - Rua da Torrinha
Sábado e Domingo: Faculdade de Psicologia e Ciências da Comunicação - Pólo da Asprela (Paranhos)


Alojamento:
O alojamento é Solidário e será feito nas casas dos aderentes do BE do Porto. No entanto, é recomendado que os participantes tragamsaco cama e toalha.


Transporte:
Será disponibilizado transporte a partir de Lisboa e Coimbra (ida Sexta feira e volta Domingo - hora de partida a designar). O transporte tem um custo simbólico de 5€.
Alimentação:
Serão disponibilizados no local o Almoço e Jantar de Sábado bem como o Almoço de Domingo - 3.5€ cada refeição


Inscrições:
As inscrições poderão ser feitas através do site: 
http://www.inconformacao.pt.vu/

Contactos:mail: inconformacao2011@gmail.com  ou bloco.porto@bloco.org 
telefone: 222002851

info ESQUERDA.NET 03/11/2011



Merkel, Sarkozy e FMI deram ultimato à Grécia 
A convocatória do referendo grego ao pacote de ajuda europeia enfureceu os governos alemão e francês. O primeiro-ministro Papandreou lançou uma moção de confiança no parlamento e diz que a Grécia pode ir a referendo no dia 4 de Dezembro. Na passagem por Cannes, ficou a saber que o país só recebe a sexta tranche do empréstimo caso o referendo aprove o plano da troika.
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Bloco desafia o PS a votar contra o Orçamento de Estado 
A Comissão Política do Bloco de Esquerda aprova resolução (aceda à resolução na íntegra em pdf) onde denuncia que o governo e a troika estão a declarar guerra à sociedade e desafia o Partido Socialista a rejeitar a proposta de Orçamento de Estado. O Bloco considera também que o problema da zona Euro é a austeridade e que o caminho para a solução só pode ser o crescimento e o combate ao desemprego.


Pior que morrer é não pagar
Nelson Peralta 
Quando, perante a morte de um povo, a nossa preocupação é que assim não pode pagar a dívida agiota à banca sabemos que chegámos ao grau zero da Humanidade.


G-20: o protesto está em Nice
A reunião do G20 em Cannes vai contar com muitos protestos e uma contra-cimeira, para voltar a exigir dos políticos que a vida das pessoas venha primeiro que o interesse da finança. ", disse.





 Overdose liberal
Luís Branco 
A crise e o desemprego estão a empurrar muitos ex-toxicodependentes de volta ao consumo. Será esta a melhor altura para acabar com o IDT?.

Rebelião do povo grego leva a crise política e põe em pânico cúpula da UE 

A 28 de Outubro de 2011, o povo grego rebelou-se por todas as cidades helénicas. Perante o “não” massivo, Papandreou decidiu convocar um referendo, abrindo uma crise política. A repercussão foi mundial, com as bolsas a caírem brutalmente. Merkel e Sarkozy exigem que a Grécia cumpra as suas imposições e decidem reunir antes do G20. Em Atenas, Papandreou demite as chefias das Forças Armadas.
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 António Pinho Vargas n' Os Cantos da Casa 
António Pinho Vargas : Solo II (2009).
Pucarinho : Na rua amarela (2011).
José Mário Branco : Margem de certa maneira (1972).
Luís Pedro Silva : Fado descanecado (2011).
Edição nº 119, de 3 de novembro de 2011.


3 de Novembro
Debates à Esquerda – Olh’a Revolução!
A Revolução, o que é?, com Jorge Costa e José Soeiro. Organização da Cooperativa Culturas do trabalho e Socialismo - CULTRA.Vercartaz.
LisboaLivraria Ler Devagar (Lx Factory, em Alcântara), 21h.

PARLAMENTO - Este não é o nosso ORÇAMENTO
Organização: Plataforma 15 de Outubro. Ver evento nofacebook.
Lisboa, Assembleia da República – São Bento, 15h.

Projecção do filme “A Pequena Loja na Rua Principal”
Realizadores: JánKadár e Elmar Klos, 1965.
Setúbal, Prima Folia (R. Fran Pacheco n.º 178), 21h30.

Exibição do Filme "Erin Brockovich" em homenagem a Paula Tavares
Com intervenção de Paula Chainho, seguido de Debate sobre Questões ambientais. Verprograma.
LisboaCentro de Cultura e Intervenção Feminista da Umar,20h30.

4 de Novembro
Sessão “A crise económica e social - que soluções?"
Com Francisco Louçã.
Moita, Biblioteca Municipal,21h30.

Concerto pela cultura
 Incluído no conjunto de iniciativas COOLTURA PRA TODOS, organizada pela Concelhia de Odivelas do Bloco de Esquerda. Ver panfleto.
Odivelas, Pavilhão Polivalente (junto às Piscinas e Escola Secundária), 21h.

Jantar - debate "O Círculo Cultural de Setúbal - história e identidade da cultura setubalense"
Com José Maria Dias (TEF) e José Luís Neto (Prima Folia). Marcações - 96 368 37 91/96 97 91 335.
Setúbal, Prima Folia (R. Fran Pacheco n.º 178), 20h.
5 de Novembro 
Conferência Internacional O Euro e a Crise das Dívidas
9h30m - Sessão de abertura, com Marisa Matias (Vice-Presidente do PEE) - "O Euro e as Dívidas - Diagnóstico e Soluções" e Eugénia Pires (Portugal) - "O que é a Dívida?"
10.30h - Os PIIGs: Diagnóstico dos países com as maiores dificuldades. Com Nuno Teles (Portugal), Eoin O'Broin (Irlanda) e Nikos Pappas (Grécia)
12h - Segundo painel: Os que se seguem. Com Ricard Fernández (Espanha), Alfonso Gianni (Itália) e Pedro Filipe Soares (Portugal)
15h — Terceiro painel: Respostas europeias. Com Michel Husson (França), Elisa Ferreira (Portugal), Jeremy Corbyn (Reino Unido) e Miguel Portas (Portugal)
17h30m — Encerramento: Francisco Louçã
Porto, Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto (Metro Pólo Universitário – Rua Alfredo Allen), Entrada livre – Tradução simultânea, 9h30m – 18h30m
Sessão Pública – Que saídas para a crise?
Com Francisco Louçã e Pedro Filipe Soares. Ver cartaz.
Santa Maria da Feira, Auditório da junta de Freguesia,21h30.


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Bloco desafia o PS a votar contra o Orçamento de Estado

A Comissão Política do Bloco de Esquerda aprova resolução, onde denuncia que o governo e a troika estão a declarar guerra à sociedade e desafia o Partido Socialista a rejeitar a proposta de Orçamento de Estado. O Bloco considera também que o problema da zona Euro é a austeridade e que o caminho para a solução só pode ser o crescimento e o combate ao desemprego.
Artigo | 2 Novembro, 2011 - 03:01


“A tragédia grega antecipa o que é a política de austeridade e aquilo que se tornará inevitável em Portugal nos próximos tempos” declarou Marisa Matias em conferência de imprensa.

“Fazemos um apelo muito concreto ao PS para que rejeite este Orçamento, porque tem a ver com políticas de máxima austeridade e de máxima recessão. O PS deve clarificar a sua posição e deve ficar ao lado dos trabalhadores com o voto contra este Orçamento”, declarou Marisa Matias em conferência de imprensa onde anunciou as conclusões da reunião da Comissão Política do Bloco de Esquerda.

Na resolução, a Comissão Política do Bloco recusa o “regime do trabalho gratuito”, assinalando que “o corte até dois meses de salário aos funcionários públicos e a todos os reformados acima de 485 euros é o sinal de uma violência social inaceitável” e apontando que a solução do governo PSD-CDS é “tirar dinheiro a quem trabalha e aos mais pobres e deitar dinheiro para a banca”. (aceda à resolução da Comissão Política do Bloco de Esquerda na íntegra em pdf).

A resolução sublinha também que as medidas do Governo são inéditas, pois “nenhum país europeu no último século aumentou o horário de trabalho e impôs trabalho gratuito aos seus trabalhadores”, realçando ainda que “em Portugal, já se trabalha em média mais uma hora por semana do que na Alemanha e duas horas do que em França, com salários três vezes mais reduzidos”.

A Comissão Política do Bloco lembra que o Governo anunciou cortes drásticos na educação e no Serviço Nacional de Saúde (SNS), concluindo que “ao atacar os direitos essenciais da vida do trabalhador, o governo e a troika estão a declarar guerra à sociedade”.

A resolução destaca também que o problema fundamental da União Europeia é a recessão e que “o agravamento e alastramento das políticas de austeridade apenas aprofunda esse problema”. Considera ainda que se exige “uma reestruturação da dívida dos países periféricos da Zona Euro, de preferência negociada em escala europeia e ao serviço dos países sob resgate e não dos interesses dos credores”. Defende que a sustentabilidade das “finanças públicas passa pela criação de instrumentos de política económica à escala europeia, como a emissão de Eurobonds e a taxação das transacções financeiras, que devem contribuir para um orçamento comunitário com capacidade para combater o desemprego”, concluindo que “o caminho para a resolução dos problemas da zona Euro tem de ser o do crescimento e o combate ao desemprego”.

Na conferência de imprensa Marisa Matias sublinhou que a situação da Grécia é um aviso sério ao Governo português, considerando que o referendo "traduz de forma clara a crise política que se vive na Grécia". "Este é um recado mais do que evidente para o Governo português. É um recado para Portugal, porque prova-se que o sistema na Grécia está a desfazer-se - e isso devemos ter em atenção - e porque prova que falhou a política de austeridade", realçou a eurodeputada.

Marisa Matias afirmou ainda: "Se o mais recente plano de austeridade aplicado à Grécia fosse para a frente, nos termos em que estava a ser definido, apenas conseguiria que em 2020 a dívida grega estivesse ao nível de 120% do PIB. Após 30% de perda do valor real dos salários gregos, de transferência sem precedentes do valor do trabalho para o capital, aquilo que se queria oferecer é que a dívida fosse equivalente ao montante quando estes planos começaram”.

A eurodeputada concluiu, afirmando: “A tragédia grega não é apenas grega. Antecipa o que é a política de austeridade e aquilo que se tornará inevitável em Portugal nos próximos tempos”.


Fabian Figueiredo

Tintim e a nostalgia


Antes do filme de Spielberg.

[O ruído mediático sobre a apresentação do filme de Steven Spielberg "Tintim e o Segredo do Unicórnio" é uma boa ocasião para voltar a publicar este artígo de Hendrik Patroons, escrito em 2007, por ocasião de uma exposição que o museu Beaubourg, em Paris, dedicou a Hergé].


A trajetória ideológica de Georges Remi (1907-1083), aliás Hergé, um homem profundamente afecto à monarquia belga, é conhecida: em jovem combinava um catolicismo rígido com uma atitude política profundamente reaccionária; durante a Ocupação, tinha ilusões com a nova ordem encarnada pelos nazis; depois da guerra, evoluiu até um conservadorismo firme, com um pedaço de humanismo, mas politicamente desenganado. Continuou, sem dúvida, a frequentar os seus antigos amigos da extrema-direita.

As aventuras de Tintim e Milou, que estão hoje nas livrarias não são o simples reflexo da visão do mundo transmitida pelo cidadão Hergé. Ocorre o mesmo com a obra de todo o verdadeiro artista. O facto de um produto artístico escapar à unidimensionalidade política do seu criador, e ser dirigido, sem ser conscientemente e através de múltiplos níveis de interpretação, ao mundo em geral, faz parte quiçá da definição da arte.

Federico Engels dizia que tinha aprendido muito mais sobre a sociedade francesa com um defensor da grande propriedade, como Balzac do que com qualquer manual de economia política. Pelas suas contradições internas, a crítica social reaccionária pode trazer à luz o que o progresso burguês prefere ocultar.

Os 22 álbuns a cores, dos quais "Tintim no País dos Sovietes" faz parte e cujos primeiros números foram retocados e coloridos, depois da Segunda Guerra Mundial, constituem o corpo central do mito Tintim. Mito que se converteu num fenómeno mundial, mantido conscientemente com humor e ironia, pelos tintinófilos, tintinólogos e demais tintinólatras.

Não esqueçamos, sem dúvida, o aspecto comercial da empresa. Hergé era artista, mas também era empresário e trabalhava em estreita colaboração com o mundo da edição. Moulinsart, empresa de Rodwell, que depois foi marido de Fanny, a viúva de Hergé, é uma mina de ouro. O que prova que o romanticismo juvenil pode muito bem adaptar-se ao mercado capitalista.

Mas quem diz mercadoria supõe que esta responde a uma necessidade, que tenha portanto um valor de uso e não só um valor de troca. Como explicar esta necessidade? Citemos, para imitar atintinologia de alto nível, um grande pensador: "Agora, o problema coloca-se aqui da necessidade interior de uma semelhante necessidade, com os outros domínios da vida e do mundo. Todas as esferas diferentes da vida existem. Encontramo-las como tal ao nosso redor. Entretanto, a ciência não se contenta com estes factos, ela procura qual é a sua necessidade recíproca e as relações internas que as unem." (G.W.F. Hegel, Estética).

Adaptações ao cinema

Não tenho a pretensão de explicar esta necessidade tintinesca. Só posso avançar com alguns elementos de resposta. O que me choca, em primeiro lugar, é a nostalgia dos tintinófilos (aos que pertenço) pelos seus sonhos de infância, suscitados por cada leitura de uma das aventuras de Tintim, sobretudo as mais antigas. A criança não se reconhece no mundo contra-imaginário do quotidiano que a rodeia e que contradiz a retidão e a vida aventureira de Tintim. Baudelaire expressou esta nostalgia em "A Viagem": "Para a criança, amante dos mapas e dos selos/O  universo é igual ao seu amplo apetite/Ah! Quão grande é o mundo à luz as lâmpadas! Quão pequeno é o mundo aos olhos da recordação!"

Parafraseando Marx, quando comenta a função escapista da religião, pode dizer-se que Tintim é "o suspiro da infância abatida, a alma de um mundo infantil sem alma". É o ópio das pessoas dos 7 aos 77 anos. Os álbuns do último período oferecem uma desculpa suplementar à nossa nostalgia, porque dirigem-se, através do seu humor, também aos adultos, como mostra por exemplo "As jóias de Castafiore". Outros elementos jogam sem dúvida um papel neste desejo do passado. A moda posmodernista rechaça as grandes interpretações históricas e prefere projecções nostálgicas do passado. Uma produção cinematográfica centrada no começo do século XX é a prova disso.

A banda desenhada não escapa a isso. Benoît Peeters sublinhou que, desde há alguns anos, "a banda desenhada europeia alimenta-se em grande medida da nostalgia. Blake e Mortimer, Marsupilam, Lucky Luke e muitos outros conheceram novas aventuras, depois do desaparecimento do seu criador". Esta nostalgia pela banda desenhada antiga e pelo período em que apareceu materializou-se incluso, em 1990, com o filme "Dick Tracy", de Warren Beatty. E não é casualmente que Steven Spielberg, grande conhecedor da alma infantil, acarinhou o projecto de levar ao cinema algumas aventuras de Tintim.

Censura

Concluímos esta homenagem com uma anedota. Há uma dúzia de anos, encontrei-me, em Gante ("essa jóia dos Ardenas belgas, celebre no mundo inteiro pelos seus campos de tulipas",segundo o jornal sensacionalista París Flash) com uma senhora de Shangai, que antes tinha ajudado nas suas lides com os serviços de imigração. Eu levava uma camiseta Tintim e, ao ver-me, exclamou "Tinn-Tinn", é o nome que o nosso herói tem na China.

Tintim não era um nome desconhecido na República Popular de Mao e a Revolução Cultural, tal como Didi em "O Loto Azul", não conseguiu decapitá-lo. Os álbuns circulavam em edições piratas, num formato diferente e impressos em papel de má qualidade. Foi em Amsterdão onde tive conhecimento da sua existência. Uma grande livraria da Leidse Straat vendia-os baratos. Mas isso mudou! Antes inclusivamente da China ser admitida na Organização Mundial do Comércio, as edições Casterman e China Children Publishing House assinaram um acordo: todos os álbuns estão já à venda no mercado do Império do Meio. Todos? Pois bem, não. Há um que falta: "Tintim no Tibete". Mil milhões de raios, os piratas não vão parar!

Publicado em Rouge nº 2189, 18/1/2007


Tradução: António José André